Cultura

Cultura carioca em tempos de crise: resistência e reinvenção

Cultura carioca em tempos de crise: resistência e reinvenção

Apesar dos cortes de financiamento e das dificuldades econômicas, a cena cultural do Rio de Janeiro continua produzindo com criatividade e resistência. Uma visita aos espaços que estão reinventando a cultura na cidade.

Há uma narrativa sobre o Rio de Janeiro que circula há anos: a cidade está em decadência, os artistas foram embora, a cultura morreu. É uma narrativa que tem elementos de verdade — os cortes de financiamento cultural foram reais, a pandemia destruiu espaços que não voltaram, muitos artistas migraram para São Paulo ou para o exterior.

Mas é também uma narrativa incompleta. Porque ao mesmo tempo que alguns espaços fecharam, outros abriram. Ao mesmo tempo que alguns artistas foram embora, outros chegaram ou permaneceram. A cultura carioca não morreu — ela se reorganizou.

O Centro do Rio, que por décadas foi associado apenas ao trabalho e ao abandono noturno, vive uma transformação discreta mas consistente. Espaços como a Cine Joia, o Espaço Cultural da Marinha e dezenas de galerias independentes criaram um circuito cultural que atrai moradores de toda a cidade nos fins de semana.

"O Centro sempre teve potencial. A gente só precisava de pessoas que acreditassem nisso", diz o curador Fábio Morais, que abriu uma galeria de arte contemporânea na Rua do Ouvidor em 2023. "E as pessoas vieram."

Na Lapa, o tradicional polo de samba e choro resiste às transformações do bairro. Os Arcos da Lapa continuam sendo o cenário de rodas de samba que reúnem músicos de todas as gerações. A Fundição Progresso, que passou por reforma em 2025, voltou a ser um dos principais espaços de shows e eventos culturais da cidade.

Nas periferias, a cultura sempre foi mais resistente do que o centro reconhecia. O funk, o pagode, o hip-hop, o forró nordestino trazido pelos migrantes — essas expressões nunca precisaram de financiamento público para existir. Elas existem porque são necessárias para as comunidades que as criaram.

"A cultura carioca é mais forte do que qualquer crise", diz a cantora de samba Roberta Sá, que nasceu em Pernambuco mas faz do Rio sua base há 20 anos. "Porque ela não depende de política cultural. Ela depende de gente que precisa se expressar."

O desafio é criar condições para que essa expressão se sustente economicamente — que artistas possam viver do seu trabalho, que espaços culturais se mantenham abertos, que a diversidade da cena não seja sufocada pela concentração de recursos em poucos projetos.

Henrique Vasconcelos
Henrique Vasconcelos
Editor-Fundador

Jornalista carioca com passagem pela Piauí e O Globo. Especializado em grandes reportagens e análises de longo fôlego sobre política, economia e sociedade brasileira.