Os dados de violência no Rio de Janeiro mostram uma realidade complexa que não cabe em manchetes. Uma análise das causas estruturais, das políticas que funcionaram e das que falharam.
Falar sobre segurança pública no Rio de Janeiro é sempre um exercício de navegar entre simplificações. De um lado, os que veem apenas o caos e concluem que nada funciona. De outro, os que defendem políticas específicas com fervor quase religioso, ignorando evidências contrárias. A realidade, como sempre, é mais complicada.
Os dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) para 2025 mostram um quadro misto. Homicídios dolosos caíram 8% em relação a 2024, chegando ao menor número desde 2009. Mas roubos de rua subiram 12%, e crimes cibernéticos cresceram 45%. A violência não desapareceu — ela se transformou.
A queda nos homicídios é real e significativa. Pesquisadores atribuem parte dela à expansão das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) em comunidades específicas, ao trabalho de inteligência que desarticulou algumas facções e, paradoxalmente, à consolidação territorial de outras — quando um grupo domina completamente uma área, a disputa violenta diminui.
"Menos homicídio não significa necessariamente mais segurança para o morador", alerta a pesquisadora do CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania) Silvia Ramos. "Pode significar que uma facção ganhou a guerra. O morador continua refém, só que de um senhor diferente."
O modelo das UPPs, que chegou a ser celebrado internacionalmente, enfrenta hoje uma crise de credibilidade. Das 38 unidades criadas entre 2008 e 2015, apenas 24 ainda operam com alguma efetividade. O problema não foi o conceito, dizem os especialistas, mas a falta de investimento em serviços sociais que deveriam acompanhar a pacificação.
"A UPP entrou, mas a escola não melhorou, o posto de saúde não abriu, o emprego não chegou", diz o sociólogo Luiz Eduardo Soares, que participou da concepção do programa. "Sem isso, a polícia sozinha não sustenta a paz."
O debate sobre segurança pública no Rio precisa urgentemente sair do ciclo de soluções mágicas — mais policiamento, mais presídios, mais operações — e enfrentar as causas estruturais: desigualdade, falta de oportunidades, ausência do Estado em territórios periféricos. Não é uma agenda fácil. Mas é a única que pode produzir resultados duradouros.