O Rio de Janeiro tem um déficit habitacional de 400 mil unidades e um estoque de 200 mil imóveis vazios. Por que as políticas habitacionais não conseguem resolver esse paradoxo?
O Rio de Janeiro tem um paradoxo habitacional que desafia qualquer análise superficial: ao mesmo tempo que 400 mil famílias vivem em condições precárias ou não têm moradia adequada, a cidade tem mais de 200 mil imóveis vazios — segundo estimativa do IBGE baseada no Censo de 2022.
Como um problema tão óbvio persiste por décadas, resistindo a governos de diferentes orientações políticas?
A resposta está em um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente. O primeiro é a especulação imobiliária: proprietários de imóveis vazios frequentemente preferem manter o bem desocupado aguardando valorização do que alugá-lo, especialmente em bairros nobres onde a valorização histórica é alta. O IPTU progressivo, previsto no Estatuto da Cidade desde 2001, raramente é aplicado com rigor suficiente para tornar a especulação custosa.
O segundo fator é a localização do déficit. As famílias que mais precisam de moradia estão nas periferias e favelas, enquanto os imóveis vazios se concentram nas zonas Sul e Oeste. Transferir famílias para esses imóveis sem infraestrutura de transporte, emprego e serviços cria novos problemas.
"Moradia não é só teto", explica a urbanista Raquel Rolnik, que já foi relatora especial da ONU para o direito à moradia. "É localização, é acesso a oportunidades. Colocar família pobre em bairro rico sem suporte é deslocamento, não solução."
O terceiro fator é político. Programas habitacionais de grande escala exigem desapropriações, conflitos com proprietários e decisões impopulares. Governos tendem a preferir soluções que não gerem conflito — o que geralmente significa soluções insuficientes.
O programa Minha Casa Minha Vida, na sua versão atual, tem metas ambiciosas mas enfrenta gargalos de terreno, financiamento e capacidade construtiva. No Rio, a meta para 2026 é de 15 mil unidades — número que representa menos de 4% do déficit estimado.
Enquanto isso, as favelas crescem, os aluguéis sobem e as famílias de baixa renda continuam sendo empurradas para as margens da cidade.